Professor Agostinho Serrano cedeu entrevista para Blog Cientista Didático

A entrevista de hoje é com o educador em ciências que iniciou sua trajetória acadêmica nas áreas “puras”, mas migrou para a área de ensino há doze anos: Agostinho Serrano de Andrade de Andrade Neto. Formado em Física pela UFPE, fez seu doutoramento na área de Física Atômica e Molecular/Química Quântica na USP, realizando modelagem computacional de moléculas isoladas e em meio solvente. Após ter vindo para a ULBRA em 2001, migrou para a área de ensino e fez um pós-doutoramento na área de Ensino junto ao Prof. Marco Antônio Moreira no Instituto de Física da UFRGS. Analisando seu  Currículo Lattes podemos perceber seu envolvimento com as Tecnologias da informação e comunicação aplicadas ao Ensino de Ciências, seu principal foco de investigação, em especial é o uso de simulações e modelagem aplicadas ao ensino de física e química, tendo publicado na área de modelagem tanto em física e química pura como em ensino. O professor Agostinho é atualmente professor do PPGECIM da ULBRA, onde atua na formação de mestres e doutores na área.

Vejamos a entrevista, que foi respondida por e-mail:

Cientista Didático: Você atribui algum papel para a didática no desenvolvimento da ciência e da tecnologia?

Agostinho Serrano: Esta é decerto uma pergunta profunda! A didática é uma tentativa de se compreender, estudar e sistematizar métodos para o ensino de algo, e no caso da ciência e tecnologia, no ensino das mesmas. É inegável que o fazer científico atual – que requer o esforço conjunto de centenas ou milhares de cientistas, como podemos ver, dentro de um exemplo atualíssimo do esforço para detecção e caracterização do que seria o Bóson de Higgs – seria impossível se não houvesse um esforço didático aplicado à ciência e tecnologia, o que possibilita a formação em massa de muitos cientistas. Também podemos pensar o processo inverso: utilização da ciência e tecnologia aplicadas à didática.
Cientista Didático:  Na história da ciência de sua disciplina você poderia indicar algum cientista que tenha colaborado bastante com o desenvolvimento do ensino e da didática (da química, por exemplo)?
Agostinho Serrano:Dois nomes me saltam à memória quando li a pergunta: Richard Feynmann e Lev Davidovich Landau. O primeiro conhecido tanto pela sua forma original e não ortodoxa de fazer e ensinar física (conforme ele, herdada do seu pai) e do seu senso de humor afiadíssimo (também como o próprio afirma, herdado de sua mãe). O segundo conhecido por ser rigorosíssimo no que concebia ser “conhecimento mínimo em física” – elaborou um teste que em pouco menos de 30 anos apenas 43 candidatos passaram.
Feynmann e Landau publicaram livros didáticos em física, que ainda hoje são utilizados por estudantes e que mostram o insight que os mesmos possuíam. Uma curiosidade é que ambos participaram do programa nuclear de seus países de origem, EUA e URSS.
Cientista Didático:Como você se aproximou da didática das ciências?
Agostinho Serrano:Me aproximei da didática das ciências após ingressar no PPGECIM da ULBRA. Até então trabalhava em uma área de interface entre a física e a química: de um lado chamada de física atômica e molecular e do lado oposto da cerca de química quântica. Uma das áreas didáticas que me fascinou foi a Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem, em especial pela Psicologia Cognitiva; bem como tive um fascínio natural pelo desafio que é a metodologia de pesquisa em humanidades, que requer uma percepção aguda das reações humanas e uma resposta pronta quando realizamos entrevistas, de forma que tenhamos dados interessantes para responder nossas perguntas de pesquisa. Posso dizer que o conhecimento implícito que é utilizado no pensar é o que me mais fascina, e a investigação disto o que mais me motiva atualmente – fazendo uma analogia com um iceberg, o conhecimento verbalizado e escrito durante o ensino e a aprendizagem me parece cada vez mais com a “ponta do iceberg” para a compreensão dos problemas de aprendizagem.
Cientista Didático:Qual a sua opinião em particular sobre a importância da didática na formação do professor de Ciências?
Agostinho Serrano: Dito de forma bem simples, direta e dura: O ensino da didática como disciplina divorciada das ciências pode até ser prejudicial, tanto que frequentemente é rejeitada pelo professor de ciências durante a sua práxis. Por outro lado, quando a didática de cada disciplina é ensinada, uma inseparável da outra, sinto que os professores aceitam a didática de forma quase “visceral”, não apenas do pescoço para cima, mas mudando-os como um todo, como diria Rogers.
Cientista Didático: Hoje os professores se deparam com a necessidade da “alfabetização digital” em todos os níveis de ensino. Qual sua opinião sobre as tecnologias de informação e comunicação no processo de ensino – aprendizagem em Ciências?
Agostinho Serrano: As TICs são parte essencial e inseparável do mundo atual. Elas estão possivelmente provocando mudanças cognitivas importantes que mal conseguimos vislumbrar. Existem dados que indicam que as pessoas estão cada vez mais capazes de visualizar internamente imagens estáticas e dinâmicas, e que esta capacidade foi adquirida principalmente ao ter contato tanto com as TICs como pela modificação cultural provocada pelas TICs – pense em como a MTV apresenta informação quando comparada com o mesmo tipo de veículo 30 anos atrás, a primeira com uma carga de informação visual que provavelmente seria rejeitada cognitivamente por jovens da década de 50, quando a televisão foi popularizada no mundo inteiro. Para ser franco, a pergunta quase não faz sentido, pois argumentar a favor de um “ensino sem TICs”, hoje em dia, soa como um bucolismo utópico.
Cientista Didático:Como você entende que deva ser trabalhado o ensino de sua disciplina hoje em dia?
Agostinho Serrano: Não irei falar em “utilização plena e consciente de TICs, etc”, mas irei utilizar uma palavra-chave: tanto para a física como para a química, a visualização parece ser um alvo a ser atingido, na direção do que seria o Graal do ensino de física e química: a modelagem, e as TICs parecem ser a ferramenta adequada para conseguirmos este objetivo. Outra coisa importante é explorar as redes sociais, como o Cientista Didático se propõem a fazer.
Fonte: Daniele Raupp – http://www.cientistadidatico.com.br/2012/07/entrevista-com-agostinho-serrano.html?spref=fb
Daniele Raupp é Doutoranda em Educação em Ciências PPGQVS – UFRGS. Possui graduação em Química Licenciatura pela Universidade Luterana do Brasil – ULBRA (2007) e mestrado em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Luterana do Brasil – ULBRA (2010)